Saúde · Verão
Dormir no calor: o que funciona sem ar-condicionado
Nas noites acima de 30 graus, as pessoas dormem em média 14 minutos a menos, e cerca de 17% dos domicílios brasileiros têm ar-condicionado. Para os outros, sobram o ventilador, o banho, a janela aberta e uma coleção de truques. Seis afirmações sobre o sono no calor, cada uma confrontada com o que a sustenta e com o que a contesta.
Redação Zuben · 11 de outubro de 2026 · Leitura de 13 minutos
O Instituto Nacional de Meteorologia previu um outubro mais quente que a média na maior parte do país, com desvios acima de 2 graus em áreas de Goiás, do Distrito Federal e de Minas Gerais17. De dia, o calor se resolve com sombra, água e paciência. À noite, ele cobra de outro jeito: o sono demora a vir, vai embora antes da hora e deixa o dia seguinte mais curto.
A solução mais eficaz é conhecida e tem preço. Uma pesquisa da Empresa de Pesquisa Energética citada pelo setor aponta que 17% dos domicílios brasileiros têm um ou mais aparelhos de ar-condicionado16. Os demais atravessam a noite com o que há em casa, e cada família tem a sua receita: ventilador no máximo, banho gelado, lençol molhado, bacia de gelo, janela escancarada.
Esta reportagem continua a matéria sobre o sono publicada na semana passada e segue o mesmo método. Pega as frases mais repetidas sobre dormir no calor e faz com cada uma a mesma coisa: mostra o que a sustenta, o que a contesta e o que sobra de pé.
Fontes: Minor e outros, One Earth (2022); EPE, via Times Brasil (2025); Morris e outros, The Lancet Planetary Health (2021); Haghayegh e outros, Sleep Medicine Reviews (2019).
O que o calor faz com o sono
Dormir exige que o corpo esfrie um pouco, e é por isso que a temperatura do quarto pesa tanto. Três mecanismos explicam quase tudo o que vem a seguir.
- Para pegar no sonoO corpo precisa perder calorA temperatura interna cai no começo da noite, e o calor sai pela pele, principalmente pelas mãos e pelos pés10. Com o quarto quente, essa saída fica mais lenta.
- Durante a noiteMais despertares, menos sono profundoNos estudos de laboratório, o calor aumenta o tempo acordado e reduz o sono de ondas lentas e o sono REM3.
- O agravanteUmidadeO suor só refresca quando evapora. Calor úmido aumenta a carga térmica durante o sono e piora os dois efeitos anteriores3.
A Organização Mundial da Saúde, em orientação para ondas de calor, recomenda manter o cômodo abaixo de 32 graus de dia e de 24 graus à noite, com atenção especial a bebês, a pessoas com mais de 60 anos e a quem tem doença crônica13.
Seis afirmações postas à prova
Afirmação 1
“No calor, a gente dorme menos.”
O que sustenta
O maior estudo sobre o tema juntou 7 milhões de noites de sono de mais de 47 mil adultos em 68 países, medidas por pulseiras. Nas noites acima de 30 graus, o sono encolheu em média pouco mais de 14 minutos, e a chance de dormir menos de sete horas subiu junto com a temperatura. A perda vem das duas pontas: as pessoas adormecem mais tarde e acordam mais cedo1.
Nos Estados Unidos, uma pesquisa com 765 mil pessoas mostrou que cada grau a mais na temperatura noturna rendeu três noites maldormidas a mais por mês em cada grupo de cem pessoas, com efeito quase três vezes maior no verão2.
O que contesta
Catorze minutos é uma média, e pequena. O estudo das pulseiras retrata quem usa pulseira de monitoramento, e os autores não tinham como saber quem dormia com ar-condicionado1. Quem é mais atingido aparece nos próprios dados: moradores de países de renda mais baixa, idosos e mulheres. No levantamento americano, o efeito foi duas vezes maior entre idosos e três vezes maior entre os de menor renda2.
Também não existe uma temperatura ideal que sirva para todos. Em idosos acompanhados em casa com sensores, o sono foi mais eficiente entre 20 e 25 graus, e os pesquisadores registraram grande variação de uma pessoa para outra4.
Em capitais do Nordeste, dois meses a mais de noites acima de 25 °C
Noites a mais por ano acima de 25 °C atribuídas à mudança do clima, média de 2014 a 2023
Fonte: Climate Central, relatório sobre temperaturas noturnas (2024), via CicloVivo. Na média do país, o acréscimo foi de cerca de três noites por ano.
O que os dados permitem dizerDorme-se menos, e a conta não é igual para todos. A média de 14 minutos esconde quem perde muito mais: idosos, quem vive em casa que guarda calor e quem não tem como resfriar o quarto. Os autores do estudo das pulseiras observaram ainda que as pessoas se adaptam melhor ao frio do que ao calor1. E o número de noites quentes está aumentando, como mostra o gráfico15.
Afirmação 2
“Ventilador só espalha ar quente.”
O que sustenta
O ventilador não baixa a temperatura do ar: ele ajuda o suor a evaporar. Quando o ar está mais quente que a pele, o vento passa a empurrar calor para dentro do corpo. A orientação da OMS diz que, acima de 35 graus, o aparelho pode não evitar doenças ligadas ao calor13.
Em um experimento com idosos a 45 graus e ar seco, o ventilador triplicou o aumento do esforço do coração89. Em outro, com nove pessoas de 60 a 80 anos a 42 graus, o aparelho não trouxe benefício, o que os autores atribuíram à menor capacidade de suar na velhice7.
O que contesta
Essas são temperaturas de tarde de onda de calor, e não de quarto à noite. Pesquisadores da Universidade de Sydney calcularam até onde o ventilador ajuda: 39 graus para adultos jovens e saudáveis, 38 para idosos saudáveis e 37 para idosos que tomam remédios que reduzem o suor. Em 108 grandes cidades do mundo, de 2007 a 2019, o aparelho teria sido benéfico em mais de 94% dos dias quentes56.
No mesmo experimento com idosos, a 38 graus e ar úmido, o ventilador reduziu o esforço do coração, com ou sem a pele molhada8. E ele gasta de 30 a 50 vezes menos energia que o ar-condicionado6.
O ventilador ajuda em temperaturas mais altas do que a regra antiga dizia
Temperatura do ar até a qual o ventilador não piora o estresse pelo calor, por grupo
Fonte: Morris e outros, The Lancet Planetary Health (2021), e Universidade de Sydney. Limites simplificados, calculados por modelo para qualquer nível de umidade registrado nas cidades estudadas.
O que os dados permitem dizerPara dormir, o ventilador é a ferramenta que mais entrega pelo que custa. Ele deixa de ajudar em calor extremo e seco, acima de 37 a 39 graus, situação rara dentro de um quarto de madrugada. Quem tem rinite ou asma tem outro motivo de cuidado: o aparelho levanta a poeira do ambiente, e por isso médicos recomendam limpá-lo com frequência e não apontá-lo para o rosto18.
Afirmação 3
“Banho gelado antes de deitar é o melhor remédio.”
O que sustenta
A sensação é imediata, e há quem a recomende. O neurologista Cassio Lacerda, especialista em sono, afirmou que “tomar um banho frio ou levemente morno antes de dormir ajuda a baixar a temperatura corporal”11. A orientação da OMS para ondas de calor também inclui banhos frescos, compressas frias e escalda-pés13.
O que contesta
O que foi testado em estudos de sono é o contrário do gelado. Uma revisão de 17 pesquisas concluiu que o banho morno, com água de 40 a 42,5 graus, tomado de uma a duas horas antes de deitar e por apenas dez minutos, encurta o tempo até adormecer e melhora a qualidade do sono relatada10.
A explicação dos autores: a água morna leva sangue para as mãos e os pés, e é por ali que o corpo se livra do calor depois do banho. Eles mesmos avisam que há poucas pesquisas sobre o melhor horário e a duração10. E esses estudos não foram feitos em noites de onda de calor.
O que os dados permitem dizerO banho ajuda, e a evidência favorece o morno, com antecedência. Tomado uma ou duas horas antes de deitar, ele dá ao corpo o tempo de perder calor. Em noite muito quente, um banho fresco alivia e não há estudo que o condene. O que não tem respaldo é a ideia de que quanto mais gelada a água, melhor o sono.
Afirmação 4
“Gelo na frente do ventilador e toalha molhada viram ar-condicionado caseiro.”
O que sustenta
O princípio é verdadeiro: a água que evapora tira calor do que está em volta. A OMS inclui entre os conselhos pendurar toalhas molhadas para resfriar o ar do cômodo13, e é assim que funcionam os climatizadores evaporativos.
Molhar a pele tem prova mais direta. No experimento com idosos, borrifar água no corpo reduziu o esforço do coração tanto no calor úmido quanto no calor seco e extremo, situação em que o ventilador sozinho fez mal89.
O que contesta
A mesma orientação da OMS avisa que a toalha molhada aumenta a umidade do ar13, e calor úmido é o pior cenário para o sono3. Em cidade de ar seco, o truque rende. No litoral e na Amazônia, tende a atrapalhar.
Com o gelo, a conta é curta. Um quilo de gelo, para derreter e chegar à temperatura do quarto, absorve cerca de 0,12 quilowatt-hora de calor. Uma pessoa em repouso libera perto de 80 watts. O quilo de gelo compensa, portanto, o calor de uma pessoa por mais ou menos uma hora e meia, sem contar as paredes, que seguem devolvendo o calor do dia.
O que os dados permitem dizerResfriar o quarto com gelo e pano molhado não funciona na escala que a fama sugere. Resfriar o corpo, sim: pele úmida com ventilador ligado é a combinação com melhor resultado nos experimentos, e uma garrafa de água gelada junto ao corpo ou um pano úmido na nuca e nos pulsos seguem a mesma lógica. A conta do gelo é da redação e serve como ordem de grandeza.
Afirmação 5
“O jeito mais fresco de dormir é sem roupa e sem lençol.”
O que sustenta
Menos camadas, menos calor preso junto ao corpo. Nos estudos de laboratório, é com roupa de cama e pijama que o calor mais aumenta os despertares e reduz o sono profundo3. A OMS recomenda roupa de cama leve e nenhuma almofada, para evitar acúmulo de calor, além de roupas folgadas de fibras naturais13.
O que contesta
Tecido também trabalha a favor: ele absorve o suor e o espalha, o que ajuda a evaporação. Uma revisão de 2024 encontrou só nove estudos que compararam fibras de pijamas e roupas de cama. Entre os resultados, lençóis de linho melhoraram o sono de adultos jovens em ambiente quente, e pijamas de lã fina ajudaram idosos a adormecer em ambiente morno12.
Os autores dizem que os estudos são poucos e diferentes demais entre si para apontar um tecido vencedor12. Nenhum deles comparou dormir vestido com dormir sem roupa.
O que os dados permitem dizerMenos é melhor, e zero não tem prova. O que os estudos sustentam é tirar o que segura calor: edredom, manta, almofadas e tecido sintético grosso. Entre um lençol fino de fibra natural e nenhum lençol, a ciência não tem resposta, e o conforto de cada um decide.
Afirmação 6
“É só abrir a janela que a noite refresca o quarto.”
O que sustenta
É a recomendação oficial. A OMS orienta usar o ar da noite para resfriar a casa: abrir janelas e venezianas durante a noite e no começo da manhã, quando a temperatura de fora é mais baixa, e fechá-las de dia, sobretudo as que recebem sol, com cortinas ou toldos. Apagar luzes e desligar aparelhos também reduz o calor dentro de casa13.
O que contesta
A noite da cidade grande demora a esfriar. Nas ondas de calor dos últimos 15 anos, a temperatura por volta das 22h chegou a 28 graus em vários pontos da Grande São Paulo. “Esse dado é muito crítico, porque é nesse horário que a maioria das pessoas vai dormir”, disse Humberto Ribeiro da Rocha, professor do IAG-USP. Segundo ele, muitas construções sem isolamento guardam calor como pequenos fornos14.
A própria OMS faz a ressalva: abrir a janela “se for seguro”13. Barulho, insegurança e mosquito mantêm muita janela fechada.
Em São Paulo, a madrugada esquentou mais que a tarde
Aumento da temperatura desde o início do século 20, em graus Celsius
Fonte: Humberto Ribeiro da Rocha (IAG-USP), em evento da FAPESP, via Agência FAPESP (maio de 2026); média global segundo o IPCC.
O que os dados permitem dizerFunciona quando lá fora está mais fresco que dentro, o que em geral só acontece de madrugada. A outra metade da receita é menos lembrada e pesa tanto quanto: impedir o calor de entrar durante o dia, com janela e cortina fechadas no lado do sol. Em casa que passou a tarde aberta ao sol, a janela aberta à noite não dá conta.
O que tem respaldo e o que é mais fama do que efeito
O que os estudos sustentam
- Ventilador ligado, na imensa maioria das noites quentes.
- Pele úmida com ventilador, o par de melhor resultado nos experimentos.
- Banho morno ou fresco, de uma a duas horas antes de deitar.
- Roupa de cama leve, de fibra natural, e nada de almofadas e mantas.
- Casa fechada ao sol de dia e aberta ao ar da madrugada.
O que tem menos prova do que fama
- Gelo na frente do ventilador para resfriar o quarto.
- Toalha ou lençol molhado em cidade de ar úmido.
- Banho gelado na hora de deitar.
- Dormir sem roupa como solução melhor que um tecido fino.
- Ventilador como proteção em calor extremo e seco.
O que fazer com tudo isso
- Comece de manhã. Feche janelas e cortinas do lado que recebe sol antes de sair de casa. O quarto que não esquentou de dia é mais fácil de dormir à noite.
- Abra quando esfriar. No fim da noite e de madrugada, com o ar de fora mais fresco, abra janelas de lados opostos para o ar atravessar a casa, se for seguro.
- Desligue o que esquenta. Lâmpadas, televisão, computador e carregadores soltam calor no cômodo.
- Tome banho antes, e não na hora. Morno ou fresco, de uma a duas horas antes de deitar.
- Ligue o ventilador e umedeça a pele. Um borrifador com água ou um pano úmido na nuca, nos braços e nas pernas aumenta o efeito do vento.
- Tire o que segura calor. Edredom, manta, almofadas e pijama sintético. Fique com um lençol fino.
- Beba água ao longo da noite e evite álcool. A OMS recomenda ainda pouca cafeína e refeições leves13.
- Vá para o cômodo mais fresco. Se a sala ou outro quarto esquenta menos, a OMS recomenda dormir ali13. Colchão no chão também vale: o ar quente sobe.
Quando o calor deixa de ser só desconforto
Noite maldormida se recupera. Alguns sinais indicam que o corpo não está dando conta do calor e pedem avaliação em uma unidade de saúde, segundo o Ministério da Saúde19:
- Suor excessivo, fraqueza e tontura.
- Náusea, dor de cabeça e diarreia.
- Cãibras musculares.
Confusão mental, convulsão e perda de consciência são sinais de golpe de calor, uma emergência médica: ligue para o SAMU, no 192. Merecem atenção redobrada os idosos, as crianças pequenas, as gestantes e as pessoas com doenças do coração, dos rins, da respiração ou com diabetes. Quem toma remédio de uso contínuo deve perguntar ao médico se ele altera a resposta do corpo ao calor.
Onde os aplicativos Zuben podem ajudar
Dormir melhor no calor depende de horário e de pequenas rotinas. Três utilitários simples ajudam.
- HorárioZubenRemindUm lembrete de manhã para fechar as cortinas e outro à noite para o banho, uma ou duas horas antes de deitar.
- Conta de luzZubenCalcPara multiplicar a potência do ventilador pelas horas de uso e saber quanto a noite custa em quilowatts-hora.
- Luz baixaZubenLightA luz de tela, fraca, serve para levantar de madrugada sem acender a lâmpada do quarto.
Os aplicativos funcionam sem internet e não pedem cadastro.
A pergunta que ficou
Dá para dormir bem no calor sem ar-condicionado? Bem como em uma noite fresca, não. Melhor do que a maioria dorme, sim. O que os estudos mostram é pouco vistoso: o ventilador funciona em quase todas as noites, a pele úmida multiplica o efeito, o banho ajuda se for tomado antes e a casa precisa ser defendida do sol desde cedo. Os truques mais populares, do gelo ao banho gelado, são os que têm menos prova.
Fica também uma medida do problema. A madrugada de São Paulo esquentou 2,8 graus em pouco mais de um século, e capitais do Nordeste ganharam dois meses de noites acima de 25 graus por ano. Para os domicílios sem aparelho, que são a grande maioria, as soluções baratas vão ter de carregar um peso cada vez maior. Vale conhecer as que funcionam.
Bibliografia
Fontes consultadas pela redação. Páginas acessadas em 11 de outubro de 2026.
- MINOR, K. e outros. Rising temperatures erode human sleep globally. One Earth, 2022. Disponível em: doi.org. Resumo em: sciencedaily.com.
- OBRADOVICH, N. e outros. Nighttime temperature and human sleep loss in a changing climate. Science Advances, 2017. Resumo da Universidade da Califórnia em: universityofcalifornia.edu.
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- MINISTÉRIO DA SAÚDE. Calor (Saúde de A a Z). Disponível em: gov.br/saude.
- Imagem: homem acordado na cama às 3 horas da madrugada, de Grecia Cristina Campero Arizpe, sob a Licença Unsplash, via Unsplash. Recortada pela redação.