Dinheiro e consumo · Mercado de veículos
Carro usado: 80% mais caro que antes da pandemia, e mais disputado do que nunca
Em seis anos, o preço do usado subiu o dobro da inflação, o Brasil bateu recorde de vendas e a frota envelheceu. O que mudou entre 2019 e 2026, o que dizem comprador, vendedor, lojista e economista, e onde estão as oportunidades para quem pesquisa antes de fechar negócio.
Redação Zuben · 1º de outubro de 2026 · Leitura de 14 minutos
Quem comprou um carro usado no começo de 2020 e o guardou na garagem fez, sem saber, um dos melhores negócios da década. Do início daquele ano até novembro de 2025, o preço médio dos automóveis usados no Brasil subiu 80,5%, segundo o índice calculado pelo banco BV a partir de financiamentos reais8. Um carro que valia R$ 40 mil passou a valer, com a mesma idade e o mesmo estado, cerca de R$ 72 mil.
Para quem precisa comprar, a mesma notícia tem outro gosto. O carro que cabia no orçamento em 2019 não cabe mais, o zero-quilômetro ficou ainda mais distante, e o mercado de usados virou o verdadeiro mercado de automóveis do país. Em 2025 foram vendidos 18.508.929 veículos usados, o maior número desde o início da série, em 20111.
Esta reportagem conta como se chegou até aqui, mostra os números de antes e de depois e ouve os dois lados do balcão. A conclusão adianta-se: em um mercado caro e que mudou tanto, a informação de preço virou a ferramenta mais valiosa de quem negocia.
Fontes: banco BV (IBV Auto), Fenauto, Fenabrave e Sindipeças. A relação entre usados e novos foi calculada pela redação, considerando automóveis e comerciais leves.
De 2019 a 2026: como o mercado virou do avesso
- O último ano normalO país emplaca 2,66 milhões de automóveis e comerciais leves novos6. O zero-quilômetro mais barato do mercado custa menos de R$ 30 mil.
- A pandemia fecha fábricas e lojasAs vendas de novos caem 26,6%, para 1,95 milhão, e as de usados recuam 12,1%6. Nos últimos meses do ano, porém, as vendas de usados já superam as do mesmo período de 2019.
- Faltam chips, sobra demandaA escassez mundial de semicondutores interrompe linhas de montagem. Sem carro novo para entregar, o comprador vai para o usado. No ano, o automóvel novo sobe 16,16% e o usado 15,05% na inflação oficial11, e as vendas de usados chegam a 15,1 milhões4.
- Juros altos e crédito curtoGuerra na Ucrânia, juros em alta e eleições esfriam o mercado: as vendas de usados caem 12%, para 13,2 milhões4. Os preços, porém, não voltam atrás.
- A retomadaOs usados somam 14,4 milhões5, e os novos voltam a passar de 2 milhões pela primeira vez desde 2019.
- Primeiro recorde15,8 milhões de usados vendidos, o melhor resultado da série até então3.
- Recorde sobre recorde18,5 milhões de usados, alta de 17,3%, mesmo com a taxa básica de juros em 15% ao ano1 14. Os preços sobem 5,3% no ano.
- O ritmo diminuiNo primeiro semestre os usados ainda sobem 3,49%, mas em julho a alta é de apenas 0,07%9 10. Pela primeira vez em seis anos, o preço médio do zero-quilômetro cai em termos reais13.
Antes e depois, nos preços
A comparação mais direta é a do preço. O banco BV, maior financiador de veículos do país, acompanha os valores de automóveis leves usados usando 2019 como base. Os carros novos são medidos pelo índice de preços ao consumidor da FIPE8:
O usado subiu o dobro da inflação
Alta acumulada de preços do início de 2020 ao fim de 2025
Fontes: banco BV, IBV Auto (usados) e IPC-Fipe (novos), de janeiro de 2020 a novembro de 2025; IBGE, IPCA de 2020 a 2025, acumulado aproximado calculado pela redação.
Em uma economia normal, carro usado é um bem que perde valor com o tempo. Entre 2020 e 2025 aconteceu o contrário: o dono de um usado viu o preço de tabela do seu carro subir enquanto o carro envelhecia. O jornal Diário do Comércio calculou que, no período, o usado “rendeu” o equivalente à inflação mais 4,7% ao ano10.
O zero ficou longe
A raiz do problema está no carro novo. O preço médio efetivamente pago por um zero-quilômetro no Brasil era de R$ 152,1 mil em junho de 2026, segundo a Bright Consulting13. O modelo mais barato à venda custa perto de R$ 79 mil. Com isso, o mercado de novos ainda não voltou ao tamanho que tinha antes da pandemia7:
O mercado de novos ainda não voltou a 2019
Automóveis e comerciais leves novos emplacados, em milhões de unidades
Fonte: Fenabrave. Em 2021 e 2022 o total ficou abaixo de 2 milhões. O número de 2023 foi calculado pela redação a partir do crescimento de 14,02% informado para 2024.
Antes e depois, nas vendas
Enquanto o zero patina, o usado bate recordes. Os números da Fenauto, a federação dos revendedores, incluem automóveis, comerciais leves, motos e veículos pesados1:
Três anos seguidos de alta, dois recordes
Veículos usados e seminovos vendidos no Brasil, em milhões de unidades
Fonte: Fenauto. Em 2020, primeiro ano da pandemia, as vendas haviam caído 12,1% em relação a 2019. Para 2026, a entidade projeta entre 19,25 e 19,75 milhões.
Considerando só automóveis e comerciais leves, foram 13,7 milhões de usados contra 2,55 milhões de novos em 2025: mais de cinco usados para cada zero14. Os campeões de dezembro foram três conhecidos: Volkswagen Gol, Chevrolet Onix e Hyundai HB201.
O que o brasileiro compra é carro velho
Quase quatro em cada dez têm 13 anos ou mais
Participação nas vendas de usados em 2025, por idade do veículo; entre parênteses, a variação das vendas sobre 2024
Fonte: Fenauto, em levantamento divulgado pelo portal WM1 (Webmotors).
A consequência aparece nas ruas. A idade média dos automóveis em circulação, que era de 9 anos e 9 meses em 2019, chegou a 11 anos e 5 meses em 202512. A parcela de veículos com até cinco anos na frota caiu de 38,5% em 2015 para 22,3% em 2024.
| Ano | Idade média dos automóveis em circulação |
|---|---|
| 2019 | 9 anos e 9 meses |
| 2020 | 10 anos e 1 mês |
| 2021 | 10 anos e 5 meses |
| 2022 | 10 anos e 9 meses |
| 2023 | 11 anos e 1 mês |
| 2024 | 11 anos e 2 meses |
| 2025 | 11 anos e 5 meses |
Fonte: Sindipeças e Abipeças, Relatório da Frota Circulante, edições de 2025 e 2026.
O mesmo mercado, visto de seis lugares
Para quem compra
O ponto de vista do orçamento
O usado está caro e o financiamento também, com a taxa básica de juros em 15% ao ano. A boa notícia é que a escalada perdeu força: depois de anos de dois dígitos, a alta foi de 5,3% em 2025 e de quase zero em julho de 2026. Pela primeira vez em muito tempo, quem espera e pesquisa não é punido por isso.
Para quem vende
O ponto de vista do patrimônio
O carro na garagem vale bem mais do que valia. Mas a valorização só vira ganho real para quem não precisa comprar outro, porque o próximo carro subiu na mesma proporção. Quem vende sem conhecer o preço de referência costuma deixar dinheiro na mesa, principalmente na troca em concessionária.
Para o lojista
O ponto de vista do volume
Nunca se vendeu tanto. O presidente da Fenauto, Enilson Sales, resume a lógica do setor em uma frase: “Não existe fábrica de veículos usados”14. Com a oferta limitada ao que já está nas ruas, a disputa é por estoque de qualidade, e a entidade projeta novo recorde em 2026.
Para as locadoras
O ponto de vista da frota
Locadoras compram carros novos e os revendem como seminovos. Com o usado subindo menos, a conta delas piora: na maior empresa do setor, a depreciação por carro passou de R$ 7.501 para R$ 8.243 em um ano10. Para o consumidor, isso significa mais seminovos chegando ao mercado.
Para o economista
O ponto de vista do ciclo
O economista-chefe do banco BV, Roberto Padovani, classificou o resultado de julho de 2026 como um ponto de inflexão10. A leitura é que a fase excepcional acabou e o usado volta, aos poucos, a se comportar como um bem que se desvaloriza com o uso.
Para a cidade
O ponto de vista da frota velha
Carros mais antigos consomem mais, poluem mais e têm menos itens de segurança. O Sindipeças associa o envelhecimento da frota à dificuldade de renovação e aos desafios da descarbonização12. O que é oportunidade para o bolso tem um custo coletivo.
Onde estão as oportunidades agora
Mercado caro não é mercado sem bons negócios. Os próprios números apontam cinco frentes:
- Seminovos em oferta crescente. As vendas de veículos de até três anos cresceram 40,3% em 2025, o maior avanço entre todas as faixas2. Mais oferta significa mais espaço para negociar.
- O zero parou de subir em termos reais. O preço pago pelo carro novo caiu 3,5%, descontada a inflação, entre 2025 e junho de 202613. Quando o novo cede, o seminovo ao lado dele na vitrine precisa ceder também.
- Elétricos e híbridos usados. São os que mais perdem valor, o que é ruim para quem vende e pode ser bom para quem compra, desde que avalie a bateria e a rede de assistência (veja o gráfico abaixo).
- Diferenças regionais. Em doze meses até junho de 2026, os usados subiram 8,48% em Minas Gerais e 7,20% no Rio de Janeiro, acima da média nacional de 6,87%9. O mesmo modelo pode ter preços bem diferentes de um estado para outro.
- Para quem vende, carro de entrada. Compactos populares seguem entre os que mais valorizam: em junho, os destaques foram Renault Kwid, Volkswagen Fox e Chevrolet Onix9.
O elétrico usado perde valor duas vezes mais rápido
Desvalorização acumulada de veículos ano-modelo 2023, até julho de 2026
Fonte: banco BV, em reportagem do InvestNews (agosto de 2026).
A arma de quem negocia: saber quanto o carro vale
Em um mercado em que os preços subiram 80% em seis anos e variam de estado para estado, a memória engana. O valor que o comprador tem na cabeça é o de alguns anos atrás, e o que o vendedor tem é o do anúncio mais caro que viu. O ponto de encontro entre os dois é a Tabela FIPE.
Calculada pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas, a tabela expressa preços médios de veículos no mercado nacional e serve como parâmetro para negociações e avaliações15. É por ela que seguradoras calculam indenizações, que muitos estados calculam o IPVA e que bancos definem quanto financiam. Três cuidados ao usá-la:
- É uma média, e não um preço. Estado de conservação, quilometragem, cor, opcionais e região fazem o valor real ficar acima ou abaixo.
- Muda todo mês. Uma consulta antiga pode estar milhares de reais desatualizada.
- A versão importa. O mesmo modelo, no mesmo ano, tem versões com diferenças grandes de preço. Consultar a versão errada é o erro mais comum.
Um exemplo real: em setembro de 2026, a tabela indicava R$ 50.994 para um Volkswagen Gol 1.0 Flex 12V 2022. Um anúncio do mesmo carro a R$ 56 mil está 10% acima da referência, e essa diferença, em uma negociação, vale mais do que qualquer argumento sobre o estado dos pneus.
ZubenFipe e os aplicativos que acompanham a compra
O ZubenFipe foi feito para a consulta que se faz em pé, na frente do carro. Em poucos toques, mostra o preço de referência da Tabela FIPE para carros, motos e caminhões. Os outros aplicativos da Zuben cobrem o que vem antes e depois do aperto de mão.
- Preço de referênciaZubenFipeEscolha o tipo de veículo, a marca, o modelo e o ano, com busca por nome que encontra a versão exata. O resultado traz o valor, o código FIPE e o mês de referência, e pode ser compartilhado com o vendedor ou com a família.
- ComparaçãoHistórico do ZubenFipeAs dez últimas consultas ficam guardadas. Dá para comparar três carros vistos no mesmo dia, ou o seu carro com o que você pretende comprar, sem refazer a pesquisa.
- ContasZubenCalcQuanto o anúncio está acima da tabela, em porcentagem? Quanto custa a diferença em doze parcelas? As contas que decidem a negociação, feitas na hora.
- DocumentosZubenPDFDocumento do veículo, laudo de vistoria, recibo de compra e comprovantes de revisão digitalizados em um único PDF, para guardar e para apresentar na revenda.
- PrazosZubenRemindLembretes anuais para IPVA, licenciamento e seguro, e um aviso para o prazo de transferência depois da compra. Atrasar esses prazos gera multa.
- OrganizaçãoZubenFilesUma pasta por veículo, com documentos, notas de manutenção e fotos. Histórico de manutenção organizado é argumento de preço na hora de vender.
O ZubenFipe precisa de internet para consultar a tabela e mostra valores de referência: o preço final depende do estado do veículo e da negociação. ZubenCalc e ZubenRemind funcionam sem internet.
Seis passos antes de fechar negócio
- Consulte a FIPE da versão exata. Confira motor, câmbio e ano-modelo no documento, e não no anúncio.
- Compare pelo menos três anúncios. A diferença entre eles e a tabela mostra se o mercado da sua região está acima ou abaixo da referência.
- Faça a conta do custo total. Parcela, seguro, IPVA, combustível e manutenção. Carro mais velho costuma ter parcela menor e oficina maior.
- Peça vistoria e histórico. Laudo cautelar, consulta de débitos e multas e comprovantes de revisão. Desconfie de preço muito abaixo da tabela.
- Negocie com o número na mão. Mostrar a consulta ao vendedor muda o tom da conversa. Quem vende também ganha ao saber o piso que pode defender.
- Formalize e marque os prazos. Recibo assinado, comunicação de venda e transferência dentro do prazo legal. Guarde cópia de tudo.
O carro usado deixou de ser a segunda opção do brasileiro e virou a primeira. Em um mercado desse tamanho, caro e em mudança, a vantagem não está em ter pressa nem em ter sorte. Está em saber, antes de sentar para negociar, quanto vale o que está em cima da mesa.
Bibliografia
Fontes consultadas pela redação. Documentos e páginas acessados em 1º de outubro de 2026.
- FENAUTO. Mercado de veículos usados bate recorde histórico de vendas. 6 jan. 2026. Disponível em: fenauto.org.br.
- MONEGATO, M. Mercado de carros usados cresce 17,3% em 2025. WM1 / Webmotors, 13 jan. 2026. Disponível em: webmotors.com.br/wm1.
- FENAUTO. Fenauto anuncia recorde na venda de carros usados em 2024. 6 jan. 2025. Disponível em: fenauto.org.br.
- FENAUTO. Vendas de carros usados caem 12% em 2022 frente ao ano anterior. 2 jan. 2023. Disponível em: fenauto.org.br.
- FENAUTO. Vendas de veículos usados tem marca histórica em 2023. 2 jan. 2024. Disponível em: fenauto.org.br.
- AUTOO. Venda de carros e comerciais leves pode crescer 15% em 2021, estima Fenabrave (balanço de 2020 da Fenabrave e da Fenauto). 6 jan. 2021. Disponível em: autoo.com.br.
- AGÊNCIA BRASIL. Vendas de automóveis e comerciais leves crescem 14,02%, diz Fenabrave. Jan. 2025. Disponível em: agenciabrasil.ebc.com.br. Ver também: REPARAÇÃO AUTOMOTIVA. Fenabrave: vendas de veículos no Brasil crescem em 2025. 16 jan. 2026. Disponível em: reparacaoautomotiva.com.br.
- BANCO BV. Preço do carro usado dispara desde o início da pandemia (IBV Auto). Comunicado, 5 jan. 2026. Disponível em: prnewswire.com.
- INFOMONEY. Carros usados seguem em alta em 2026, mas elétricos ampliam desvalorização. 8 jul. 2026. Disponível em: infomoney.com.br.
- INVESTNEWS. Preço dos carros usados sobe cada vez menos. E isso é um problema para as locadoras. 11 ago. 2026. Disponível em: investnews.com.br.
- IBGE. IPCA sobe 0,73% em dezembro e fecha 2021 em 10,06%. Agência de Notícias IBGE, jan. 2022. Disponível em: agenciadenoticias.ibge.gov.br.
- SINDIPEÇAS; ABIPEÇAS. Relatório da Frota Circulante, edição de 2025. São Paulo, abr. 2025. Disponível em: sindipecas.org.br (PDF). Dados de 2025: PORTAL DA AUTOPEÇA. Frota circulante cresce, mas envelhece no caso dos carros e caminhões. 2026. Disponível em: portaldaautopeca.com.br.
- CNN BRASIL. Preço médio dos carros 0 km de 2025 a 2026 apresentou queda; entenda (dados da Bright Consulting). 29 jul. 2026. Disponível em: cnnbrasil.com.br.
- KALUME NETO, M. O Brasil ama carro, mas compra o que cabe no bolso. Autoentusiastas, 19 jan. 2026. Disponível em: autoentusiastas.com.br.
- FUNDAÇÃO INSTITUTO DE PESQUISAS ECONÔMICAS (FIPE). Preço médio de veículos: Tabela FIPE. Disponível em: fipe.org.br.
- Imagem: Rafaqmont, “Feirão de Veículos Fortaleza”, 3 maio 2017, licença CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons. Imagem redimensionada e recortada.