Saúde · Comportamento
Sono: dormimos pior do que antes?
Um em cada cinco adultos das capitais brasileiras dorme menos de seis horas, e a queixa de insônia quase dobrou em São Paulo em vinte anos. Só que, quando o sono é medido por aparelhos, e não por perguntas, a queda some. Seis afirmações comuns sobre o assunto, cada uma confrontada com a evidência que a sustenta e com a que a contesta.
Redação Zuben · 5 de outubro de 2026 · Leitura de 14 minutos
A ideia de que a vida moderna roubou o sono é quase um consenso. A luz elétrica esticou o dia, o celular foi para a cama, o trabalho invadiu a noite, e o resultado seria uma população cansada, que dorme menos e pior do que os avós dormiam. Livros, reportagens e campanhas de saúde repetem a tese com a segurança de quem descreve um fato.
Quando se vai aos dados, o quadro fica mais interessante. As pesquisas de opinião mostram, de fato, gente cada vez mais insatisfeita com o próprio sono. Já os estudos que mediram o sono com aparelhos, ao longo de mais de cinquenta anos, não encontraram a queda que todo mundo dá como certa. As duas coisas podem ser verdadeiras ao mesmo tempo, e a diferença entre elas é a parte mais útil da história.
Como nas outras reportagens desta série, o texto não parte de uma conclusão. Pega as afirmações mais repetidas e faz com cada uma a mesma coisa: mostra o que a sustenta, o que a contesta e o que sobra de pé.
Fontes: Ministério da Saúde, Vigitel (divulgado em 2026); Youngstedt e colegas, Sleep Medicine Reviews (2016); Ferracioli-Oda e colegas, PLoS One (2013).
O retrato no Brasil
Pela primeira vez, o Vigitel, inquérito telefônico do Ministério da Saúde feito nas capitais e no Distrito Federal, perguntou aos brasileiros sobre o sono. O resultado, divulgado no início de 2026: 20,2% dos adultos dormem menos de seis horas por noite e 31,7% relatam pelo menos um sintoma de insônia. Entre as mulheres, a queixa chega a 36,2%; entre os homens, a 26,2%1.
Um terço dorme mal, e as mulheres mais
Adultos das capitais brasileiras e do Distrito Federal
Fonte: Ministério da Saúde, Vigitel, via Jornal de Brasília (1º fev. 2026). Dados relatados pelos próprios entrevistados.
Há um número bem maior em circulação: o de que 72% dos brasileiros sofrem de algum distúrbio do sono, atribuído a um levantamento da Fundação Oswaldo Cruz e repetido em dezenas de reportagens2. A distância entre 72% e 31,7% não é um erro de conta. Ela mostra que o resultado depende do que se pergunta: qualquer alteração do sono, de um lado; sintomas específicos de insônia, de outro. Vale guardar essa diferença, porque ela reaparece ao longo de todo o debate.
O único estudo brasileiro que repetiu a mesma pergunta, do mesmo jeito, em décadas diferentes foi feito na cidade de São Paulo por pesquisadores da Unifesp. A parcela de adultos com dificuldade para pegar no sono passou de 13,9% em 1987 para 19,15% em 1995 e 25% em 20073. O mesmo grupo estimou que cerca de um terço dos adultos paulistanos tem apneia obstrutiva do sono, as pausas na respiração que fragmentam a noite e que, em geral, quem tem não percebe2.
Em São Paulo, a queixa quase dobrou
Adultos da cidade de São Paulo que relatam dificuldade para iniciar o sono
Fonte: Santos-Silva e colegas, Sleep Medicine (2010). Três inquéritos com a mesma metodologia, com cerca de mil entrevistados cada.
Seis afirmações postas à prova
Afirmação 1
“Dormimos cada vez menos.”
O que sustenta
As pesquisas de opinião apontam nessa direção. Nos Estados Unidos, o instituto Gallup faz a mesma pergunta desde 1942. Naquele ano, 59% diziam dormir oito horas ou mais, e só 3% dormiam cinco horas ou menos. Em dezembro de 2023, eram 26% e 20%. Pela primeira vez, a maioria, 57%, disse que se sentiria melhor se dormisse mais; em 2013 eram 43%4. Em São Paulo, a queixa de dificuldade para dormir quase dobrou em vinte anos3.
O que contesta
Quando o sono é medido, e não relatado, a queda não aparece. Uma revisão reuniu 168 estudos feitos entre 1960 e 2013, com 6.052 adultos saudáveis que tiveram o sono registrado por aparelhos, e não encontrou relação entre o ano do estudo e a duração do sono5. Nos diários de uso do tempo do governo americano, com 181 mil pessoas, o sono em dias de semana aumentou 1,4 minuto por ano entre 2003 e 2016, cerca de 17 minutos a mais por noite no período6.
O que as pessoas dizem
Americanos que afirmam dormir cinco horas ou menos por noite
Fonte: Gallup, pesquisa de dezembro de 2023, divulgada em abril de 2024. São respostas dos entrevistados, e não medições.
O que os dados permitem dizerO que piorou com certeza foi a percepção: mais gente acha que dorme pouco e mal. A duração medida, até onde há registro, ficou parecida. As duas coisas se conciliam se o problema estiver menos nas horas e mais na qualidade, na regularidade e na preocupação com o sono, que cresceu junto com o estresse. No Brasil, faltam medições antigas para dizer qual das duas histórias vale.
Afirmação 2
“Todo adulto precisa de oito horas.”
O que sustenta
As duas principais sociedades médicas do sono dos Estados Unidos recomendam, em consenso, que adultos de 18 a 60 anos durmam sete horas ou mais por noite, de forma regular8. Uma análise que somou 16 estudos e 1,38 milhão de pessoas encontrou risco de morte 12% maior entre os que dormiam pouco9.
O que contesta
A recomendação fala em sete, e não em oito. Na mesma análise, quem dormia muito, em geral nove horas ou mais, tinha risco 30% maior, mais que o dobro do aumento visto no sono curto9. Três povos sem luz elétrica, estudados na Tanzânia, na Namíbia e na Bolívia, dormem em média 6,4 horas e quase não cochilam7. E há famílias com uma mutação genética rara cujos portadores dormem cerca de seis horas e um quarto sem prejuízo aparente10.
O risco aparece nas duas pontas
Aumento do risco de morte em relação a quem dorme a duração de referência
Fonte: Cappuccio e colegas, Sleep (2010): 16 estudos, 1.382.999 participantes e 112.566 mortes. A associação não prova causa: doenças ainda não diagnosticadas podem tanto encurtar quanto alongar o sono.
O que os dados permitem dizer“Oito horas” é um número redondo, e não uma lei biológica. O que a evidência sustenta é uma faixa, em torno de sete horas para a maioria dos adultos, com variação de pessoa para pessoa. O melhor termômetro é o dia seguinte: quem acorda sem despertador e passa o dia desperto provavelmente dorme o suficiente, seja qual for a conta.
Afirmação 3
“A culpa é da tela e da luz azul.”
O que sustenta
O experimento mais citado é de Harvard. Voluntários leram antes de dormir ora em um aparelho que emite luz, ora em um livro de papel. Nas noites de tela, demoraram quase dez minutos a mais para adormecer, produziram menos melatonina e acordaram mais sonolentos11.
O que contesta
Em 2024, um grupo internacional de pesquisadores do sono reviu a questão e concluiu que o efeito da luz das telas é pequeno: nos estudos reunidos, o atraso para adormecer ficou abaixo de dez minutos, o que os autores consideram pouco para explicar noites mal dormidas12. Uma revisão Cochrane de 17 ensaios não encontrou evidência conclusiva de que óculos com filtro de luz azul melhorem o sono13.
O que os dados permitem dizerA luz azul virou vilã maior do que os números justificam. O que a tela faz com mais força é tomar o lugar do sono: o vídeo seguinte, a conversa que não acaba, a notícia que irrita. Dez minutos de atraso pela luz importam pouco; uma hora rolando o celular na cama importa muito. O filtro de luz resolve o primeiro problema, e não o segundo.
Afirmação 4
“Melatonina e remédio resolvem.”
O que sustenta
A procura cresce. Nos Estados Unidos, a parcela de adultos que tomam melatonina passou de 0,4% em 1999 para 2,1% em 201814. No Brasil, a Anvisa liberou a substância como suplemento em outubro de 2021, sem receita, para maiores de 19 anos e com limite de 0,21 mg por dia17. E ela tem efeito: nos estudos controlados, quem toma adormece antes e relata sono melhor15.
O que contesta
O efeito é modesto: em média, 7 minutos a menos para adormecer e 8 minutos a mais de sono, na soma de 19 estudos15. A dose do rótulo nem sempre é a do frasco: em 25 marcas de balas de melatonina vendidas nos EUA, a quantidade real variou de 74% a 347% da declarada16. Quanto aos remédios, a Anvisa passou a exigir receita azul para o zolpidem em agosto de 2024, depois de constatar aumento do uso irregular18.
O uso multiplicou por cinco
Adultos dos EUA que tomam suplemento de melatonina
Fonte: Li e colegas, JAMA (2022), com dados de 55.021 adultos do inquérito nacional de saúde NHANES.
O que os dados permitem dizerA melatonina funciona um pouco, e seu melhor uso é ajustar o horário do sono, como na mudança de fuso, e não derrubar quem está agitado. Para a insônia que dura meses, a recomendação médica de primeira linha não é um comprimido: é a terapia cognitivo-comportamental para insônia, que o Colégio Americano de Médicos indica antes de qualquer medicamento24. Remédio para dormir é assunto de consulta, e não de prateleira.
Afirmação 5
“O fim de semana paga a dívida de sono.”
O que sustenta
Um estudo sueco acompanhou mais de 38 mil pessoas por 13 anos. Quem dormia pouco durante a semana e compensava no sábado e no domingo teve a mesma mortalidade de quem dormia sete horas todas as noites. Quem dormia pouco a semana inteira, sem compensar, morreu mais20.
O que contesta
O resultado sueco só valeu para quem tinha menos de 65 anos20. E, em laboratório, a compensação falhou: voluntários com sono restrito na semana e livre no fim de semana beliscaram mais à noite, ganharam peso e tiveram queda de 9% a 27% na sensibilidade à insulina, conforme o tecido medido. No grupo que não compensou, a queda foi de 13%19.
No laboratório, compensar não protegeu
Queda da sensibilidade à insulina depois de dias de sono restrito
Fonte: Depner e colegas, Current Biology (2019), via Universidade do Colorado. A segunda barra representa o maior valor da faixa, que varia conforme o tecido medido.
O que os dados permitem dizerDormir mais no fim de semana é melhor do que não compensar nunca, mas não zera a conta. E tem um custo próprio: acordar três horas mais tarde no domingo é como viajar três fusos e voltar na segunda-feira. O que os estudos favorecem é a regularidade, com horários parecidos todos os dias, mais do que a compensação em parcelas.
Afirmação 6
“Relógio e aplicativo que medem o sono ajudam a dormir melhor.”
O que sustenta
Os aparelhos de pulso são bons em uma coisa: registrar a que horas a pessoa deita e levanta, noite após noite. Comparados ao exame de laboratório, acertam bem os períodos de sono22. Para quem não faz ideia de como é sua rotina, enxergar que dorme à meia-noite em um dia e às três da manhã em outro já é uma informação útil.
O que contesta
Os mesmos aparelhos erram ao detectar os despertares, e por isso tendem a superestimar o tempo dormido, e não são confiáveis para dizer quanto houve de sono profundo ou de sono REM22. Em 2017, pesquisadores americanos descreveram pacientes tão preocupados em atingir a nota perfeita no aplicativo que passaram a dormir pior, e deram ao quadro o nome de ortossonia21.
O que os dados permitem dizerO relógio serve para ver horários, e não para dar diagnóstico. Os gráficos de fases do sono são estimativas, e a nota da noite não deve valer mais do que a sensação ao acordar. Se medir deixa a pessoa ansiosa na hora de deitar, o aparelho virou parte do problema e pode ficar na gaveta.
O que sobra de pé
- A queixa aumentou; a duração medida, não. O que piorou com clareza foi a satisfação com o sono.
- A meta é uma faixa, e não um número. Cerca de sete horas para a maioria dos adultos, com variação individual.
- A tela atrapalha mais pelo tempo que toma do que pela luz que emite.
- Melatonina tem efeito pequeno, e insônia que dura meses se trata primeiro com terapia, e não com comprimido.
- Regularidade vale mais que compensação. O fim de semana ajuda, mas não zera a conta.
- Medir demais pode piorar. O aparelho mostra horários, e não a qualidade do sono.
O que a evidência recomenda
- Fixe a hora de acordar. É o horário mais fácil de controlar, e ele puxa o resto: quem levanta sempre na mesma hora tende a sentir sono sempre na mesma hora.
- Corte a cafeína seis horas antes de deitar. Em um experimento, uma dose alta tomada seis horas antes reduziu o sono em mais de uma hora, sem que os voluntários percebessem23.
- Tire o celular da cama, e não só a luz azul. Deixe o aparelho carregando fora do alcance da mão e use um despertador comum.
- Luz forte de manhã, luz fraca à noite. A claridade do dia ajusta o relógio do corpo; à noite, prefira lâmpadas de luz quente e mais baixas.
- Não brigue com a insônia na cama. Se o sono não vem, levante, faça algo calmo com pouca luz e volte quando ele aparecer. É um dos pilares da terapia para insônia24.
- Não tome remédio para dormir por conta própria. Nem o de outra pessoa, nem a sobra de uma receita antiga.
Quando procurar um médico
- Dificuldade para dormir ou para manter o sono três vezes por semana ou mais, por três meses ou mais.
- Ronco alto com pausas na respiração, percebidas por quem dorme ao lado, ou sonolência forte durante o dia: são sinais de apneia do sono, que tem tratamento.
- Sono que atrapalha o trabalho, os estudos ou a direção. Dirigir com sono é perigoso.
- Uso frequente de remédio ou de álcool para conseguir dormir.
O atendimento pode começar na unidade básica de saúde, que encaminha para o especialista quando necessário.
Onde os aplicativos Zuben podem ajudar
Boa parte do que a evidência recomenda é questão de horário e de rotina. Dois utilitários simples cobrem essa parte, sem medir nem dar nota ao seu sono.
- HoráriosZubenRemindUm lembrete diário para a última xícara de café e outro para começar a desacelerar, uma hora antes de deitar.
- RotinaZubenCalendarO mês inteiro à vista para marcar a consulta, o exame do sono e os dias em que a rotina saiu do eixo.
Os aplicativos funcionam sem internet e não pedem cadastro.
A pergunta que ficou
Dormimos pior do que antes? Pelos números disponíveis, a resposta mais honesta é: queixamo-nos mais, e isso não é pouco. Uma população em que um terço relata sintomas de insônia tem um problema real, ainda que as horas de sono não tenham encolhido como se imagina. A queixa é, ela própria, um dado.
O que os dados não autorizam é a nostalgia. O camponês que cochila no quadro de Van Gogh não dormia em um mundo sem preocupações, e os povos que vivem hoje sem luz elétrica dormem menos do que a recomendação dos médicos. O que mudou foi o que cerca o sono: a luz disponível a qualquer hora, o trabalho que alcança a cama e, por ironia, a própria ansiedade de dormir direito. Das três, a última é a única que piora quanto mais atenção recebe.
Bibliografia
Fontes consultadas pela redação. Páginas acessadas em 5 de outubro de 2026.
- JORNAL DE BRASÍLIA. Estudo aponta que 20,2% dos brasileiros dormem menos de 6 horas por noite (dados do Vigitel, Ministério da Saúde). 1º fev. 2026. Disponível em: jornaldebrasilia.com.br.
- OLHAR DIGITAL. Maioria dos brasileiros sofre com algum distúrbio do sono (levantamento atribuído à Fiocruz e dados do Episono, do Instituto do Sono). 27 set. 2024. Disponível em: olhardigital.com.br.
- SANTOS-SILVA, R. et al. Increasing trends of sleep complaints in the city of Sao Paulo, Brazil. Sleep Medicine, v. 11, n. 6, 2010. Disponível em: pubmed.ncbi.nlm.nih.gov.
- GALLUP. Americans Sleeping Less, More Stressed. 15 abr. 2024. Disponível em: news.gallup.com.
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- Imagem: Vincent van Gogh, “A sesta (a partir de Millet)”, 1889–1890, Museu d’Orsay. Domínio público, via Wikimedia Commons.